** Para acessar à entrevista realizada pelo MUVIe, que tornou-se base para este artigo, clique aqui.


MEMÓRIAS VIVENCIADAS NO PROJETO RONDON: AS ORIGENS DA EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

 

Área Temática: Cultura

 

Carla Amorim Neves Gonçalves¹

Francieli Tomé da Rosa²

Felipe Rosa²

Karoline Cardozo Lemos²

Suzane da Rocha²

Oswaldo Barbosa²

Palavras-chave: Ensino Superior, Extensão Universitária, Projeto Rondon

Resumo: O projeto Museu Virtual do Ensino de Ciências Fisiológicas da FURG (MUVIe) juntamente com o Núcleo de Memória Engenheiro Francisco Bastos Neves (NUME), vem registrar o relato de duas das pioneiras do Projeto Rondon da Universidade Federal do Rio Grande, e confronta com relatos de expedições atuais obtidos na Revista Mundo Rondon. Tem por objetivo demarcar o início do Rondon na Instituição e comparar seus efeitos sobre vida acadêmica e profissional dos Extensionistas envolvidos. Como metodologia utilizou-se a análise dos discursos a partir de entrevistas com perguntas abertas. O artigo discute a importância da atividade Rondonista para a formação acadêmica cidadã, para a autonomia e para a Extensão Universitária.

1 CONTEXTO DA  AÇÃO

              O projeto Rondon é uma proposta que promove extensão universitária com o intuito de integrar estudantes voluntários levando-os à comunidades brasileiras isoladas e de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Foi criado em 11 de julho 1967 e foi extinto em 1989. Suas atividades reiniciaram em 2005 e permanecem até hoje. Os seus principais objetivos são incluir estudantes de diferentes áreas ao processo de desenvolvimento do país perante sua realidade e assim contribuir para a formação social em prol da cidadania (Ministério da Defesa, 2013). O projeto MUVIe (Museu Virtual do Ensino de Ciências Fisiológicas) em parceria com o Museu-NUME (Núcleo de Memória Engenheiro Francisco Martins Bastos) desde 2012 vem desenvolvendo o projeto Pioneiros da FURG que tem como finalidade  descrever as origens da Universidade Federal do Rio Grande sob a ótica dos seus primeiros servidores e egressos. O propósito deste trabalho é comparar a primeira edição do projeto em 1967 e relatos atuais, entrevistando duas das primeiras voluntárias da FURG que fizeram parte da edição inaugural do Projeto Rondon no país, com a finalidade de trazer do passado as experiências pioneiras do extensionismo de nossa instituição e compará-las com as experiências recentes de Rondonistas a partir de pesquisa na Revista Mundo Rondon (http://noticias.ufsc.br/files/2014/05/Revista-Mundo-Rondon-FINAL.pdf).

2 DETALHAMENTO DAS ATIVIDADES

Inicialmente realizaram-se entrevistas com as professoras aposentadas Zilá Nunes Lawson, do curso de Letras Português Inglês e Silvia Fresteiro Barbosa, do curso Artes Visuais, ambas da FURG. A entrevista segue a metodologia de História Oral com base na metodologia de TOUTIER-BONAZZI (1998), e segue um rol de três perguntas abertas que levam a rememoração dos fatos mais relevantes do evento em pesquisa (primeira expedição do projeto Rondon da FURG) para as protagonistas, e centraliza a entrevista na determinação de como a experiência influenciou a vida profissional e pessoal destas.

As entrevistas foram transcritas pela equipe MUVIe para análise do discurso a partir das memórias de ambas entrevistadas. Após foi realizada pesquisa histórica a partir de artigos, sites e Revistas para complementação do tema.

 As entrevistas serão editadas e disponibilizadas junto com a pesquisa através do site www.muvie.furg.br.

3 ANALISE E DISCUSSÃO

Nas entrevistas, as professoras relataram sua viagem para o estado das Alagoas com os Rondonistas de 1967, quando cursavam Artes Visuais e Letras Português-Inglês. A análise preliminar destas primeiras experiências revelam o quanto estas foram relevantes, tanto profissional quanto pessoal para as mesmas.

O contato com pessoas de diferentes erudições, modos de agir e entender a vida, mas pertencentes ao mesmo país, proporcionou maior entendimento e aproximação com um Brasil continental e multifacetado, visto outrora de forma parcial e segmentar. Isso oportunizou o intercâmbio entre comportamentos pátrios e a exaltação do nacionalismo, como pode ser visto nas falas a seguir:

água, não tinha, não era tratada, nós passamos um mês sem tomar água, a água, tu enchias um copo e ela vinha turva, sabe? E nós íamos pro rio e nós víamos assim, as pessoas tirando água para beber, lavando o cavalo, lavando a roupa ali adiante e era toda a mesma água. E uma coisa que me emocionou muito, que me deu uma visão assim de Brasil, um amor ao Brasil, foi a visão do Rio São Francisco, que é chamado "Rio da integração", né?, porque realmente é um rio muito forte, sabe? É um rio assim... vem carregado e vem arrancando aquela terra, aqueles barrancos, e todo o comércio e toda vida se volta para o rio, sabe, então foi uma experiência muito boa” (S.F.B., 2013).

“Quarenta e cinco dias pernoitando em aldeias de índios em redes no meio do mato, fazendo a comida em fogueiras, tomando banho no rio, colhendo frutos (Z.N.L., 2013).”

Pode-se observar também que além o aspecto de aventura da missão, que existia uma preocupação por parte das Rondonistas em cumprir o objetivo do Projeto, aponto de se perguntarem se o curso que cursavam levaria algum tipo de aprendizado para a comunidade indígena.

“ ... os objetivos não era tanto levar os conhecimentos, era dar um pequeno atendimento que justificasse toda aquela ação ... eu tinha isso muito presente ... como eu era professora também formada em magistério ... eu podia brincar com os índios nas aldeias ...enquanto médicos, denstistas, enfermeiros dão aquele ...entre aspas atendimento ... assim (eu) fazia altas farras, ensina a eles umas brincadeiras (Z.N.L., 2013).”

De acordo com o Rondonista Denis Dockhorn da PUCRS, que atua desde 1972 (como estudante) e até hoje como professor coordenador “Na primeira fase do Rondon as ações eram basicamente assistenciais, refletindo uma ânsia por ocupação. Hoje as ações tem ênfase educativa, com o Rondonista agindo como catalisador, para que ocorram os processos sociais...” (Revista Mundo Rondon, Edição 1, 2014, pag. 41).

A partir dos relatos podemos compreender quanto o Projeto Rondon potencializava o enriquecimento do estudante, em seu aspecto acadêmico, profissional e principalmente pessoal. Dessa forma, configura-se como um instrumento que possibilita formação diferenciada de profissionais, que futuramente contribuirão para a construção da sociedade brasileira, como visto nas falas posteriores:

“Existia uma coordenação do projeto Rondon em Porto Alegre, o pessoal de Porto Alegre veio nos falar nos requisitou praticamente a nós montarmos uma subcoordenação aqui em Rio Grande” (S.F.B, 2013).

Então eu acho que na volta da jovem que eu era e quando eu cheguei de volta não queria mais Brasil queria o mundo, né? E foi na época que eu tive a grande ousadia de me inscrever em bolsas de estudo para a Europa e eu ganhava todas, eu ganhei várias bolsas para a Europa porque essa riqueza de experiências e essa paixão que eu demonstrava pelo País, que eu tinha conhecido através do projeto Rondon, me davam todos os prêmios (Z.N.L, 2013).”

            Alguns depoimentos de jovens Rondonistas da Expedição julho de 2013 publicados na Revista Mundo Rondon (2014) tratam o mesmo sentimento de proximidade com a realidade do país e testemunham crescimento pessoal.

            “... Aprendi que a prática da Medicina não inclui apenas fazer diagnósticos e prescrever medicações. Significa, no sentido mais amplo, aprender a escutar as pessoas, entrar nas casas delas, entender suas crenças, conhecer o modo como vivem para, então, ser capaz de cuidar” (C.S.O, pag.36).  

            “O Rondon  além de ser um projeto para levar informações às comunidades que apresentam necessidades de maior desenvolvimento, é um meio para que o aluno possa descobrir e se apoderar do seus próprios conhecimentos”(T.M.M., pag. 35).

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Levar o estudante universitário a realizar ações que contribuam para o desenvolvimento local sustentável, fortaleçam a cidadania e colaborem com o bem-estar da população – esta é a missão do projeto, apresentada pelo coordenador regional do Rondon, Coronel José Victorio” (Revista Mundo Rondon, 2014, 41).

Hoje, o projeto ainda proporciona aos moradores de cidades distantes cultura, direitos humanos, justiça, educação e saúde. Mas, para os jovens Rondonistas que participam do projeto, não só carregam para a vida inteira o sentido de responsabilidade social, coletiva, em prol da cidadania, do desenvolvimento e da defesa dos interesses nacionais, como também o sentimento de dever cumprido e a certeza de que muito ainda poderá ser feito. Este sentimento já estava nos primórdios de sua criação e ainda que atualmente as dificuldades e dúvidas possam ser diferentes, o espírito jovem de querer curar suas mazelas, é o mesmo ontem e hoje. Conforme o Coordenador Nacional do Rondon, Vice- Almirante Edlander Santos “Todo jovem tem um disposição intrínseca de se comprometer com causas sociais; basta que se ofereçam oportunidades” (Revista Mundo Rondon, 2014, pag. 6)

Tendo em vista as múltiplas possibilidades de aprendizado multi, inter e transdisciplinar que podem advir da participação em um projeto extensionista como o Rondon, e para além da formação acadêmica complementar, as possibilidades de experiências de imersão em outras realidades, de “outros Brasis”, que culminam em multiculturalidades e ampliação das vivências cidadãs plenas, consideramos este tipo de ação altamente formativa e uma excelente justificativa para a curricularização e creditação da extensão nos cursos de graduação.

REFERÊNCIAS

MINISTÉRIO DA DEFESA. Portal do Projeto Rondon. Disponível em  <http://projetorondon.defesa.gov.br/portal > Acesso em 30 jun. 2014.

TOUTIER-BONAZZI, Chantal de. Arquivos: propostas metodológicas. In: FERREIRA, M. M. & AMADO, J. (org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro : Fundação Getúlio Vargas, 1998.

REVISTA MUNDO RONDON. Portal do Projeto Rondon. Disponível em: < http://projetorondon.pagina-oficial.com/publicador/file/download/id/108887> Acesso em 30 jun. 2014.



¹ Prof. Dra., Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Rio Grande

² Enfermagem, Escola de Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande

² Artes Visuais, Instituto de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande

²Engenharia da Computação, Centro de Ciências Computacionais, Universidade Federal do Rio Grande

² Artes Visuais, Instituto de Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande

² Professor especialista, Universidade Federal do Rio Grande